Era um sábado à tarde. Eu dirigia tranquilamente, até passar na pista ao lado, atrapalhando o meu Radiohead que tocava baixinho, um playboy com um carro tunado, a 120 km/h. Era sábado e ele tinha pressa. É segunda e eu tenho pressa. Já é quinta e você também tem pressa. Pressa we go.

Aproveitei os últimos dias para reparar alguns momentos da minha rotina, que deixam claro que eu também faço parte dessa turma do “rush”. Para começar, percebi que o “desculpe, estava com pressa” funciona melhor que “desculpe, estou de TPM”. Mesmo que não seja a mais pura verdade, as pessoas acreditam. Afinal, o mundo está girando rápido demais, e se você parar para discutir se pode ser mentira ou se pode ser desculpa, bom… você perde tempo. Em segundo lugar ficou o dia que fui na padaria comprar um lanche. Eu me imaginei pulando no pescoço da mulher que demorou cinco minutos para digitar a senha do cartão de crédito na fila para pagar. Ela digitava lentamente, revezando um dedo na maquininha e outro na boca, raciocinando de forma bem zen qual seria o próximo número da senha. Errou duas vezes. E por fim, eu já me imaginava pulando no seu pescoço e praticando uma morte bem lenta. Ela estava de chinelo, de bom humor, de bem com a vida e não tinha pressa. Eu estava atrasada para voltar para a agência e tinha muita, muita pressa. E relatórios para entregar. A terceira e última situação foi quando precisei marcar com o pintor para pintar duas paredes do meu apartamento. “Fechou, Ronaldo? Terça, às 10h?”, perguntei. “Combinado. Mas você se importa de me ligar na segunda às 20h para me lembrar? Pode ligar na terça às 8h também”. E tudo que vinha na minha cabeça era: será que Ronaldo acha que estou por conta dele e da pintura do meu apartamento? Pô, Ronaldo, colabora. Eu tenho pressa. E claro, eu me esqueci de ligar. E ele não foi.

Será que nessa pressa do dia-a-dia deixamos algo para trás? Ou somos deixados? De repente olhamos para o calendário e nos assustamos, como quem não correu léguas o ano inteiro. “Dezembro, Natal, mas já?”. Virei escrava de Mark Zuckerberg e sua falta de trejeito ao achar mais simples que as pessoas me eviem o que precisam falar por “inbox” no Facebook. Virei discípula de Steve Jobs, ao responder e-mails no meu iPhone, enquanto almoço. Tenho medo de deixar pessoas especiais serem pisoteadas pela correria. De não fazer aquela ligação, aquela visita ou ter tempo para desejar a um bom amigo os parabéns pessoalmente. Tenho medo também de esquecer de ligar para os meus pais, para minha avó ou para a dermatologista, para simplesmente desmarcar uma consulta. Como também tenho vontade que as horas voem, os projetos se concluem e que coisas boas venham a jato. Brigo com a rapidez, xingo as horas e logo, logo, faço as pazes e peço um pouco de tranquilidade e paz.

O mais engraçado é que o playboy que passou ao meu lado a 120 km/h teve que parar seu carro tunado no mesmo sinal que eu, e esperar os mesmos três minutos. Eu só não digo que a pressa é inimiga da perfeição, porque ele era bonito demais. Demais.

Texto por Marcela Brafman, siga a linda no twitter!

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